sábado, 11 de março de 2017

DEVER DE CASA, NECESSÁRIO PARA A COMPLEMENTAÇÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR


O dever de casa é uma ferramenta que complementa o aprendizado assimilado pelo discente na escola. Cabe ao professor orientá-lo da melhor maneira possível, a fim de que a criança ou mesmo o adolescente consiga compreender e ser capaz de resolvê-lo. Nesse espaço, entra como parceiro a família, possibilitando que esta atividade seja realizada, assim com a participação dos pais no acompanhamento da atividade dos filhos, o processo educativo só tende a se desenvolver.  (GREGÓRIO)


ATIVIDADE 1


UM CASO DE BURRO

            Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais.
Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente, que parecia estar próximo do fim.
Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos. Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.
O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas ideias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.
E diria o burro consigo:
            “Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”
            “Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”
“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada – ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim...”
Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?
Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.
Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.


Machado de Assis. https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/nossas-publicacoes/revista/paginas-literarias/artigo/457/coletanea-de-textos-do-caderno-a-ocasiao-faz-o-escritor-um-caso-de-burro


EXPLORANDO O TEXTO

     01.  A história relatada acontece
(A)  num estábulo.
(B)  num quintal.
(C) próximo de um jardim.
(D) numa praça.

   02.  No trecho: “Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos”. O pronome destacado substitui
(A)  o narrador.
(B)  o burro.
(C) o menino.
(D) o povo.

     03.  A situação que gerou o conflito da narrativa foi
(A)  o fato de o burro está caído num lugar inapropriado.
(B)  o abandono do animal pelo dono.
(C) a aglomeração das pessoas ao redor do bicho.
(D) o fato de o animal parecer estar quase morto.

     04.  Em qual pessoa foi escrita a história do texto?
(A)  1ª pessoa do singular.
(B)  2ª pessoa do plural.
(C) 3ª pessoa do singular.
(D) 3ª pessoa do plural.

      05.  Associe de acordo com as informações do texto.
(A)  Informação explícita.
(B)  Informação implícita.
(C) Tema do texto.
(D) Objetivo do texto.

(__) Compara-se com a escravidão do negro.
(__) Levar o leitor a perceber melhor a crítica feita ao tipo
de humano que valoriza a submissão e a conformidade.
(__) Um burro caído numa praça.
(__) Trata-se do descaso do animal comparado com o sofrimento na época da escravatura no Brasil.  

06. O gênero deste texto é 
      (A) conto.
      (B) relato histórico.
      (C) fábula.
      (D) crônica.

 07. Nesse trecho: “Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica...“; a fala colocada entre aspas é do
(A) burro.
(B) dono do animal.
(C) narrador.
(D) amigo do narrador.

08. De que modo o autor finaliza sua história?

09. Em sua opinião, será que o ser humano como o burro pode ser deixado a própria sorte? De que modo? 



ATIVIDADE 2


Leia o texto abaixo, para responder às questões de 1 a 10.
                                                             OUSADIA

A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, a contrariedade se anunciou:
- A sua passagem já está paga, disse o motorista.
- Paga por quem?
- Esse cavalheiro aí:
E apontou um mulato bem vestido que acabara de deixar o ônibus, e aguardava com um sorriso junto à calçada.
- É algum engano, não conheço esse homem. Faça o favor de receber.
- Mas já está paga...
            Faça o favor de receber! – insistiu ela, estendendo o dinheiro e falando bem alto para que o homem ouvisse:
- Já disse que não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Por favor, faço questão que o senhor receba minha passagem.
O motorista ergueu os ombros e acabou recebendo: melhor para ele, ganhava duas vezes. 
A moça saltou do ônibus e passou fuzilada de indignação pelo homem.
Foi seguindo pela rua sem olhar para ele.
Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos.
Somente quando dobrou à direita para entrar no edifício onde morava, arriscou uma espiada: lá vinha ele! Correu para o apartamento, que era no térreo, pôs-se a bater aflita:
- Abre! Abre aí!
A empregada veio abrir e ela irrompeu pela sala, contando aos pais atônitos, em termos confusos, a sua aventura.
- Descarado, como é que tem coragem? Me seguiu até aqui!
De súbito, ao voltar-se, viu pela porta aberta que o homem ainda estava lá fora, no saguão. Protegida pela presença dos pais, ousou enfrentá-lo
- Olha ele ali! É ele, venha ver! Ainda está ali, o sem-vergonha. Mas que ousadia!
Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça.

 - Mas a senhora, como é que pode! É o Marcelo.
- Marcelo? Que Marcelo? – a moça se voltou surpreendida.
- Marcelo, o meu noivo. A senhora conhece ele, foi quem pintou o apartamento.
A moça só faltou morrer de vergonha:
- É mesmo, é o Marcelo! Como é que não reconheci! Você me desculpe, Marcelo, por favor.
No saguão, Marcelo torcia as mãos encabulado:
- A senhora é que me desculpe, foi muita ousadia.

Fernando Sabino. http://textoemmovimento.blogspot.com.br/2015/07/ousadia-interpretacao-cronica-89-ano.html


01.  Associe de acordo com o seguinte código.
(A)   Situação inicial.
(B)   Conflito.
(C)   Clímax.
(D)  Desfecho.

(__) Ao subir para seu apartamento, a moça percebe que o homem que a estava seguindo está no saguão do prédio.
(__) Surpreende-se ao saber que a passagem já foi paga por um rapaz que a espera.
(__) Uma moça, no ônibus, vai pagar a passagem.
(__) A moça só faltou morrer de vergonha porque descobre que o homem não era suspeito e sim o noivo de sua empregada, ela não o havia reconhecido.

02.  O gênero deste texto é
(A)   Conto.
(B)   Artigo científico.
(C)   Crônica.
(D)  Relatório.

03.  A linguagem utilizada pelo autor no texto se dá através
(A)   De registro informal.
(B)   De registro regional.
(C)   De registro formal-informal.
(D)  De registro formal.

04.  No trecho “No saguão, Marcelo torcia as mãos encabulado:...” A palavra destacada significa
(A)   Envergonhado.
(B)   Decepcionado.
(C)   Desavergonhado.
(D)  Indecente.

05.  Nesse trecho “A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, ...” essa fala refere-se a qual personagem?
(A)   Marcelo.
(B)   Empregada.
(C)   O motorista.
(D)  O narrador.

06.  Nesse trecho “...Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça....” A expressão em destaque significa
                   (A)   Surpresa.
(B)   Arrependida.
(C)   Envergonhada.
(D)  Indignada.

07.  O trecho do texto a seguir “Já disse que não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Por favor, faço questão que o senhor receba minha passagem.” As palavras destacadas são respectivamente

(A) Pronome possessivo, pronome oblíquo, advérbio de lugar, advérbio de negação.
(B) Advérbio de negação, advérbio de lugar, pronome oblíquo , pronome possessivo.
(C) Pronome oblíquo, advérbio de negação, advérbio de lugar, pronome possessivo.
(D)  Advérbio de lugar, pronome possessivo, advérbio de negação, pronome oblíquo.

08.  De acordo com a leitura do texto, fica subentendido a questão
(A)  da discussão entre a passageira e o motorista.
(B)  da passagem paga.
(C)  a perseguição do mulato à moça.
(D)   a vergonha da jovem.

09. No trecho a seguir “Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos”. O pronome destacado substitui
(A) A moça..
(B) A noiva do mulato.
(C) Outra passageira do ônibus.
(D)  A mãe da empregada.

10.  O tema do texto é
(A)  O preconceito racial e social.
(B) A discriminação racial.
(C) O assédio em transporte público.
                     (D) A surpresa pela passagem paga.



ATIVIDADE 3



Responda às questões de 11 a 15, consultando o texto.
O MENINO

Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido. 
Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.
Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.
Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.
Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.
Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.
Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.
De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto.
Tímido até a ousadia, seus silêncios gritavam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.
Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.
Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.
Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador do jeito que ele é, não duvido nada.
Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.
Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todos os dias.
 Se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque... ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

(Chico Anysio. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/um-autorretrato-inedito-de-chico-anysio-4428439. Acesso em: 27/6/2014.)

         01.    O gênero desse texto é
(A)    Conto.
(B)    Crônica.
(C)    Diário.
(D)    Anúncio.

        02.    Qual o vocábulo que expressa uma opinião?
(A)    “O apelo de um menino desaparecido.”
(B)    “Se toda criança tivesse infância, seria um adulto feliz.”
(C)    “Dom Quixote foi um sonhador do jeito que era.”
(D)    “Se souber de alguma notícia me procure.”

         03.   O principal assunto do texto é
(A)    A pouca atenção que se dá a infância no Brasil.
(B)    O desaparecimento de crianças no Brasil.
(C)    A precariedade da educação dos filhos.
(D)    A pobreza que ainda rege na maior parte do Brasil.
   
         04.   Qual é o objetivo do texto?
(A)    Mostrar a falta que a infância faz na vida de uma criança.
(B)    O descaso da gestão pública em relação às crianças de rua.
(C)    A ausência da família na vida dos filhos.
(D)    A falta da afetividade no ambiente escolar.

         05.  Qual é o vocábulo que apresenta uma informalidade?
(A)    “... desses milhares de meninos que não pediram pra nascer,...”
(B)    “Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso.”
(C)    ‘Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.’
(D)    “Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.”

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