sábado, 11 de março de 2017

DEVER DE CASA, NECESSÁRIO PARA A COMPLEMENTAÇÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR


O dever de casa é uma ferramenta que complementa o aprendizado assimilado pelo discente na escola. Cabe ao professor orientá-lo da melhor maneira possível, a fim de que a criança ou mesmo o adolescente consiga compreender e ser capaz de resolvê-lo. Nesse espaço, entra como parceiro a família, possibilitando que esta atividade seja realizada, assim com a participação dos pais no acompanhamento da atividade dos filhos, o processo educativo só tende a se desenvolver.  (GREGÓRIO)


ATIVIDADE 1


UM CASO DE BURRO

            Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais.
Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente, que parecia estar próximo do fim.
Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos. Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.
O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas ideias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.
E diria o burro consigo:
            “Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”
            “Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”
“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada – ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim...”
Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?
Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.
Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.


Machado de Assis. https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/nossas-publicacoes/revista/paginas-literarias/artigo/457/coletanea-de-textos-do-caderno-a-ocasiao-faz-o-escritor-um-caso-de-burro


EXPLORANDO O TEXTO

     01.  A história relatada acontece
(A)  num estábulo.
(B)  num quintal.
(C) próximo de um jardim.
(D) numa praça.


   02.  No trecho: “Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos”. O pronome destacado substitui
(A)  o narrador.
(B)  o burro.
(C) o menino.
(D) o povo.


     03.  A situação que gerou o conflito da narrativa foi
(A)  o fato de o burro está caído num lugar inapropriado.
(B)  o abandono do animal pelo dono.
(C) a aglomeração das pessoas ao redor do bicho.
(D) o fato de o animal parecer estar quase morto.


     04.  Em qual pessoa foi escrita a história do texto?
(A)  1ª pessoa do singular.
(B)  2ª pessoa do plural.
(C) 3ª pessoa do singular.
(D) 3ª pessoa do plural.


      05.  Associe de acordo com as informações do texto.
(A)  Informação explícita.
(B)  Informação principal.
(C) Tema do texto.
(D) Objetivo do texto.


(__) Compara-se com a escravidão do negro.
(__) Levar o leitor a perceber melhor a crítica feita ao tipo
de humano que valoriza a submissão e a conformidade.
(__) Um burro caído numa praça.
(__) Trata-se do descaso do animal comparado com o sofrimento na época da escravatura no Brasil.  

06. O gênero deste texto é 
      (A) conto.
      (B) relato histórico.
      (C) fábula.
      (D) crônica.

 07. Nesse trecho: “Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica...“; a fala colocada entre aspas é do
(A) burro.
(B) dono do animal.
(C) narrador.
(D) amigo do narrador.


08. De que modo o autor finaliza sua história?

09. Em sua opinião, será que o ser humano como o burro pode ser deixado a própria sorte? De que modo? 


ATIVIDADE 2


Leia o texto abaixo, para responder às questões de 1 a 10.
                                                             OUSADIA

A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, a contrariedade se anunciou:
- A sua passagem já está paga, disse o motorista.
- Paga por quem?
- Esse cavalheiro aí:
E apontou um mulato bem vestido que acabara de deixar o ônibus, e aguardava com um sorriso junto à calçada.
- É algum engano, não conheço esse homem. Faça o favor de receber.
- Mas já está paga...
            Faça o favor de receber! – insistiu ela, estendendo o dinheiro e falando bem alto para que o homem ouvisse:
- Já disse que não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Por favor, faço questão que o senhor receba minha passagem.
O motorista ergueu os ombros e acabou recebendo: melhor para ele, ganhava duas vezes. 
A moça saltou do ônibus e passou fuzilada de indignação pelo homem.
Foi seguindo pela rua sem olhar para ele.
Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos.
Somente quando dobrou à direita para entrar no edifício onde morava, arriscou uma espiada: lá vinha ele! Correu para o apartamento, que era no térreo, pôs-se a bater aflita:
- Abre! Abre aí!
A empregada veio abrir e ela irrompeu pela sala, contando aos pais atônitos, em termos confusos, a sua aventura.
- Descarado, como é que tem coragem? Me seguiu até aqui!
De súbito, ao voltar-se, viu pela porta aberta que o homem ainda estava lá fora, no saguão. Protegida pela presença dos pais, ousou enfrentá-lo
- Olha ele ali! É ele, venha ver! Ainda está ali, o sem-vergonha. Mas que ousadia!
Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça.
- Mas a senhora, como é que pode! É o Marcelo.
- Marcelo? Que Marcelo? – a moça se voltou surpreendida.
- Marcelo, o meu noivo. A senhora conhece ele, foi quem pintou o apartamento.
A moça só faltou morrer de vergonha:
- É mesmo, é o Marcelo! Como é que não reconheci! Você me desculpe, Marcelo, por favor.
No saguão, Marcelo torcia as mãos encabulado:
- A senhora é que me desculpe, foi muita ousadia.

Fernando Sabino. http://textoemmovimento.blogspot.com.br/2015/07/ousadia-interpretacao-cronica-89-ano.html


01.  Associe de acordo com o seguinte código.
(A)   Situação inicial.
(B)   Conflito.
(C)   Clímax.
(D)  Desfecho.


(__) Ao subir para seu apartamento, a moça percebe que o homem que a estava seguindo está no saguão do prédio.
(__) Surpreende-se ao saber que a passagem já foi paga por um rapaz que a espera.
(__) Uma moça, no ônibus, vai pagar a passagem.
(__) A moça só faltou morrer de vergonha porque descobre que o homem não era suspeito e sim o noivo de sua empregada, ela não o havia reconhecido.


02.  O gênero deste texto é
(A)   Conto.
(B)   Artigo científico.
(C)   Crônica.
(D)  Relatório.


03.  A linguagem utilizada pelo autor no texto se dá através
(A)   De registro informal.
(B)   De registro regional.
(C)   De registro formal-informal.
(D)  De registro formal.


04.  No trecho “No saguão, Marcelo torcia as mãos encabulado:...” A palavra destacada significa
(A)   Envergonhado.
(B)   Decepcionado.
(C)   Desavergonhado.
(D)  Indecente.


05.  Nesse trecho “A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, ...” essa fala refere-se a qual personagem?
(A)   Marcelo.
(B)   Empregada.
(C)   O motorista.
(D)  O narrador.


06.  Nesse trecho “...Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça....” A expressão em destaque significa
                   (A)   Surpresa.
                   (B)   Arrependida.
                   (C)   Envergonhada.
                   (D)  Indignada.

07.  O trecho do texto a seguir “Já disse que não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Por favor, faço questão que o senhor receba minha passagem.” As palavras destacadas são respectivamente

(A) Pronome possessivo, pronome oblíquo, advérbio de lugar, advérbio de negação.
(B) Advérbio de negação, advérbio de lugar, pronome oblíquo , pronome possessivo.
(C) Pronome oblíquo, advérbio de negação, advérbio de lugar, pronome possessivo.
(D)  Advérbio de lugar, pronome possessivo, advérbio de negação, pronome oblíquo.


08.  De acordo com a leitura do texto, fica subentendido a questão
(A)  da discussão entre a passageira e o motorista.
(B)  da passagem paga.
(C)  a perseguição do mulato à moça.
(D)   a vergonha da jovem.


09. No trecho a seguir “Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos”. O pronome destacado substitui
(A) A moça..
(B) A noiva do mulato.
(C) Outra passageira do ônibus.
(D)  A mãe da empregada.


10.  O tema do texto é
(A)  O preconceito racial e social.
(B) A discriminação racial.
(C) O assédio em transporte público.
                     (D) A surpresa pela passagem paga.


ATIVIDADE 3

                                      Responda às questões de 1 a 5, consultando o texto.


O MENINO


Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido. 
Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.
Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.
Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.
Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.
Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.
Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.
De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto.
Tímido até a ousadia, seus silêncios gritavam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.
Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.
Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.
Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador do jeito que ele é, não duvido nada.
Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.
Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todos os dias.
 Se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque... ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

(Chico Anysio. Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/um-autorretrato-inedito-de-chico-anysio-4428439. Acesso em: 27/6/2014.)

         01.    O gênero desse texto é
(A)    Conto.
(B)    Crônica.
(C)    Diário.
(D)    Anúncio.


        02.    Qual o vocábulo que expressa uma opinião?
(A)    “O apelo de um menino desaparecido.”
(B)    “Se toda criança tivesse infância, seria um adulto feliz.”
(C)    “Dom Quixote foi um sonhador do jeito que era.”
(D)    “Se souber de alguma notícia me procure.”


         03.   O principal assunto do texto é
(A)    A pouca atenção que se dá a infância no Brasil.
(B)    O desaparecimento de crianças no Brasil.
(C)    A precariedade da educação dos filhos.
(D)    A pobreza que ainda rege na maior parte do Brasil.
   
         04.   Qual é o objetivo do texto?
(A)    Mostrar a falta que a infância faz na vida de uma criança.
(B)    O descaso da gestão pública em relação às crianças de rua.
(C)    A ausência da família na vida dos filhos.
(D)    A falta da afetividade no ambiente escolar.

         05.  Qual é o vocábulo que apresenta uma informalidade?
(A)    “... desses milhares de meninos que não pediram pra nascer,...”
(B)    “Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso.”
(C)    ‘Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.’
(D)    “Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.”


                                                    ATIVIDADE 4

                                      

MEDO DA ETERNIDADE



Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.



Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.



Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:



- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.



- Não acaba nunca, e pronto.



- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.


- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por que. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
                                                                        Clarice Lispector.

COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
Responda às questões abaixo, com base no texto “Medo da Eternidade”, de Clarice Lispector.

Releia a primeira frase do texto: “Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

01. Com o trecho acima a cronista se refere ao seguinte episódio
      (A)  quando mascou chiclete pela 1ª vez.
      (B)  da irmã ter dado chiclete e recomendado para não perder nunca.
      (C) da ingenuidade da menina ao receber a bala.
      (D) Por deixa-la cair, devido ao peso da responsabilidade.

02. Releia esse trecho do sétimo parágrafo: “Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer.” Qual é o sentido da expressão em destaque?
(A)  Poção mágica, capaz de proporcionar prazer por bastante tempo.
      (B)  Essência aromatizante, que exala um cheiro agradável.
      (C) Remédio utilizado para impotência sexual.
      (D) O apimentamento do amor entre um casal.

03. O tema do texto é
(A)  a eternidade.                                        (C) o maior medo do ser humano.
     (B)  a morte.                                                (D) a fragilidade humana.

          04. A forma como a expressão elixir do longo prazerfoi utilizada no texto,
                assume um tom
      (A)  coloquial.                                              (C) irônico.
      (B)  contraditório.                                        (D) negativo.

05. No trecho “Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá”,
      o pronome em destaque substitui
     (A)  a menina.                                               (C) a mãe da narradora.
     (B)  a irmã da menina.                                  (D) outro personagem.

          06. O gênero do texto é
     (A) conto.                                                       (C) diário.
     (B) relato de memórias.                                 (D) crônica.

          07. Qual é a opção que expressa uma opinião?
     (A)  “Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles...”
     (B)  “Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca...”
     (C) “... minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a
            escola me explicou...”
     (D) “O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo...”

08. O objetivo do texto é
      (A)  ressaltar a fragilidade humana e fazer uma reflexão.
      (B)  mostrar a ingenuidade da autora quando pequena.
      (C) contar ao leitor de modo simplório o que é a eternidade.
      (D) conduzir o leitor a compreender o outro plano que está além deste.

            09. A narradora do texto em estudo é
       (A)  personagem.                                         (C) onisciente.
       (B)  observadora.                                         (D) neutra.

10.  O que gerou a situação conflituosa da narrativa foi
       (A)  a bala mastigada pela menina e as explicações dada pela irmã.
       (B)  a menina fingir que deixou cair o chicle no chão sem querer.
       (C) a menina reconhecer que não suportaria o peso da eternidade.
       (D) a forma simplória como a autora desenvolveu o tema abordado.

                                         RESPOSTAS
1) A. 2) A. 3) B. 4) C. 5) A. 6) D. 7) D. 8) A. 9) A. 10) A.


Responda às questões abaixo, com base no texto de L.F.Riesemberg.


O TREM DA MEIA NOITE

Dava para ouvir quando ele passava, sempre por volta da meia noite. Quando criança, Richard ficava acordado em sua cama até ouvir o apito, e imaginava como era o trem, para onde iria, que carga levava e quem estaria a bordo. Durante o dia ele ia brincar perto dos trilhos, mas nunca viu a locomotiva. O único horário em que ela passava era tarde demais para se estar por lá.
         "Um dia quero ficar ao lado da linha para vê-lo soltando fumaça", pensava. Mas acabava nunca indo. Apenas ouvia aquele silvo agudo, ao longe, na hora de dormir.
Assim foi durante anos, até que o trem parou de apitar. Foi de repente, numa noite qualquer. O relógio marcou meia noite, depois uma da manhã, duas, e nada. Ele simplesmente não passou pela cidade, e isso se seguiu nas noites seguintes, e então nunca mais.
          Richard lamentou ter perdido a chance de ver o trem, que sempre tivera papel importante em sua imaginação. Mas aos poucos ele foi se esquecendo que um dia tinha ouvido os apitos. O menino cresceu, começou a trabalhar, casou, teve filhos, eles cresceram, lhe deram netos, enviuvou...
           Na velhice, Richard passou a escutar cada vez menos. Tinha sempre que perguntar duas ou três vezes antes de responder uma pergunta, o que irritava os menos pacientes. Sentia-se um velho triste e sem utilidade, cujas antigas histórias não interessavam a mais ninguém.
           Foi numa noite de nostalgia que, pouco antes de adormecer, ele o ouviu. Começou baixinho, muito distante, e então foi crescendo. O trem estava passando por lá outra vez.
           "Não é possível!", pensou.
           Depois de setenta anos a locomotiva estava novamente nos trilhos. O som ia ficando cada vez mais forte, e ele não quis mais esperar. Levantou da cama, calçou os chinelos e saiu de casa, depois caminhou até a linha de trem. Não havia ninguém na rua para estranhar um senhor da sua idade andando de pijamas.
            O apito ia ficando cada vez mais forte à medida que Richard se aproximava da linha de ferro, até que eles se encontraram. Pela primeira vez Richard viu aquele enorme dragão de ferro vindo em sua direção, cantarolando e soltando fumaça pela chaminé. 
            O trem foi diminuindo a velocidade e parou exatamente onde Richard esperava.
            __ Viemos especialmente para buscá-lo, Richard - disse o maquinista.
            Convertido novamente em um menino, ele subiu os degraus da locomotiva.
            __ Eu posso puxar a corda que faz apitar? - perguntou o garoto.
           Apesar da ferrovia estar desativada há décadas, todos os moradores da cidade juravam que, na noite em que o velho Richard se foi, ouviram um animado apito de trem chegar aos seus ouvidos.

SOBRE O AUTOR


L.F.Riesemberg, nascido em 06 de outubro de 1980, é paranaense, natural de São Mateus do Sul, e mora em Curitiba. Formado em Jornalismo e em Letras, atua profissionalmente como técnico de ensino no Senai. Apaixonado por literatura fantástica, começou a escrever influenciado por Stephen King. Hoje inspira-se principalmente nos autores Ray Bradbury e Roald Dahl, mas também ama Jorge Luís Borges, Guy de Maupassant e muitos outros. Temas constantes em seus contos: os prazeres e os terrores da infância. É casado e tem um filho.


                                                      ATIVIDADE 5



01. Associe de acordo com o seguinte código:

     (A) Situação inicial.



(B) Conflito.


     (C) Clímax.

(D) Desfecho.


                      


            (__) Apesar da ferrovia estar desativada há décadas, todos os moradores da cidade juravam que, na noite que o velho Richard partiu, ouviram o apito de trem chegar aos seus ouvidos.


                        (__) A vontade de Richard em ver uma locomotiva.


             (__) O personagem imaginava como era o trem.
                        (__) O encontro de Richard com a locomotiva.














02. No trecho “... Richard lamentou ter perdido a chance de ver o trem, que sempre tivera papel     importante em sua imaginação. Mas aos poucos ele foi se esquecendo que um dia tinha ouvido os apitos...” O pronome destacado substitui
(A) trem.                                                   (C) apito.
     (B) maquinista.                                         (D) Richard.















03. No trecho “... foi durante anos, até que o trem parou de apitar. Foi de repente,     numa noite qualquer.” [...]. Qual é o sentido expresso pelo termo em destaque?
     (A) de súbito.                                           (C) apressadamente.
     (B) ligeiramente.                                      (D) inesperadamente.














04. De acordo com as características do texto, deduz-se que o gênero é
     (A) crônica.                                             (C) relato de memórias.
     (B) fábula.                                               (D) conto.














05. Nesse trecho do texto “Dava para ouvir quando ele passava, sempre por volta da meia noite. Quando criança, Richard ficava acordado em sua cama até ouvir o apito, e imaginava como era o trem, para onde iria, que carga levava e quem estaria a bordo.” Esta fala é de qual personagem?
      (A) Richard.                                            (C) narrador.
      (B) de outro personagem.                      (D) dos moradores da cidade.














06. A ideia central do texto é
        (A) o desejo do personagem em conhecer uma locomotiva.
        (B) a parada do trem onde Richard esperava.
        (C) a inquietação do personagem para ver o trem.
        (D) a morte de Richard e seu corpo levado pela locomotiva.














07. O propósito do texto é
      (A) informar.                                           (C) entreter.
      (B) relatar.                                              (D) persuadir.














08. Nesse trecho “Viemos especialmente para buscá-lo, Richard...” Deduz-se que a personagem que fala é
     (A) o narrador.                                        (C) o maquinista.
     (B) o trem.                                              (D) Richard.














09. No trecho a seguir “... Sentia-se um velho triste e sem utilidade, cujas antigas histórias não interessavam a mais ninguém.” As palavras destacadas são respectivamente
     (A) advérbio, adjetivo, pronome relativo.
(B) adjetivo, advérbio, pronome relativo.
     (C) pronome relativo, adjetivo, advérbio.
(D) adjetivo, pronome relativo, advérbio.  



 10. No trecho “‘Um dia quero ficar ao lado da linha para vê-lo soltando fumaça’, pensava. Mas acabava nunca indo. Apenas ouvia aquele silvo agudo, ao longe, na hora de dormir.” O uso das aspas no trecho destacado é

      (A) uma citação.                                (C) a fala do personagem.

      (B) um pensamento.                          (D) uma expressão popular.


Responda às questões abaixo, consultando o texto de Domingos Pellegrini.








SOPA DE MACARRÃO


 O filho olha emburrado o prato vazio, o pai pergunta se não está com fome.

 — Com fome eu tô, não tô é com vontade de comer comida de velho.

 Lá da cozinha a mãe diz que decretou ― De-cre-tei! — que ou ele come legumes e verduras, ou vai passar fome.

 — Não quero filho meu engordando agora para ter problemas de saúde depois. Só quer batata frita e carne, carne e batata frita!

 Ela vem com a travessa de bifes, o pai tira um, ela senta e tira o outro, o filho continua com o prato vazio.

 — Nos Estados Unidos — continua ela — um jornalista passou um mês comendo só fastfood, engordou mais de seis quilos!

 — E como é que ele aguentou um mês só comendo isso?! — perguntou o pai, o filho responde:
 — Porque é gostoso! — E pega com nojo uma folhinha de alface, põe no prato e fica olhando como se fosse um bicho.
 A mãe diz que é preciso ao menos experimentar para saber o que é ou não gostoso, e o pai diz que, quando era da idade dele, comia cenoura crua, pepino, manga verde com sal, comia até milho verde cru
— E devorava o cozido de legumes da sua avó! E essa alface? Pra comer, é preciso botar na boca...
 O filho enfia a alface na boca, mastiga fazendo careta, pega um bife, a mãe pula na cadeira, pega o bife de volta:
 — Não-senhor! Só com salada pra valer, arroz, feijão, tudo!
 — Ele continua olhando o prato vazio, até que resmunga:
 — Se vocês sempre comeram tão bem, como é que acabaram barrigudos assim?
 O pai diz que isso é da idade, o importante é ter saúde.
 — E você, se continuar comendo só fritura, carne, doce e refrigerante, na nossa idade vai pesar mais de cem quilos!
 — No Japão — resmunga ele — podia ser lutador de sumo e ganhar uma nota.
 — E no Natal — cantarola a mãe — vai ser Papai Noel né? E Rei Momo no carnaval...
 — Não tripudie — diz o pai. — Ele ainda vai comer de tudo. Quando eu era menino, detestava sopa. Aí um dia minha mãe fez sopa com macarrão de letrinhas, passei a gostar de sopa!
O filho pergunta o que é macarrão de letrinhas, o pai explica. Ele põe na boca uma rodela de tomate, o pai e a mãe trocam um vitorioso olhar. O pai faz uma voz doce:
— Está descobrindo que salada é gostoso, não está?
— Não, peguei tomate para tirar da boca o gosto nojento de alface, mas acabo de descobrir que tomate também é nojento.
— Mas catchup você come não é? Pois é feito de tomate!
— E ele também não come ovo — emenda a mãe — mas come maionese, que é feita de ovo!
O filho continua olhando o prato vazio.
— Coma ao menos feijão com arroz — diz o pai.
Ele pega uma colher de feijão, outra de arroz dizendo que viu um filme onde num campo de concentração só comiam assim pouquinho, só o suficiente pra sobreviver... Mastiga tristemente, até que o pai lhe bota o bife no prato de novo, mas a mãe retira novamente:
— Ou salada ou nada! Sem chantagem sentimental!
O pai come dolorosamente, a mãe come furiosamente, o filho olha o prato tristemente.
Depois a mãe retira a comida, ele continua olhando a mesa vazia. Na cozinha, o pai sussura para ela:
— Mas ele comeu duas folhas de alface, não pode comer dois pedaços de bife?!...
Ela diz que de jeito nenhum, desta vez é pra valer; então o pai vai ler o jornal, mas de passagem pelo filho, pergunta se ele não quer um sanduíche de bife — com salada, claro. Não, diz o filho, só quer saber de uma coisa da tal sopa de letras. O pai se anima:
— Pergunte, pergunte!
— Você podia escrever o que quisesse com as letras no prato?
— Claro! Por que, o que você quer escrever?
— Hambúrguer, maionese e catchup
 É teimoso que nem o pai, diz a mãe. Teimoso é quem teima comigo, diz o pai. O filho vai para o quarto, só sai na hora da janta: sopa de macarrão. Então, vai escrevendo, e engolindo as palavras: escravidão, carrascos, nojo, e enfim escreve amor, o pai e mãe lacrimejam, mas ele explica:
— Ainda não acabei, tá faltando letra pra escrever: amo rosbife com batata frita...

 Domingos Pellegrini – Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: (Salamandra, 2005. P.210-3.)

ATIVIDADE 6

01. O enredo do texto se dá quando
(A)    o filho diz que tá com fome, não tá é com vontade de comer comida de velho.
(B)    a mãe diz que decretou – está decretado – ou ele come legumes e verduras, ou vai passar fome.
(C)   a mãe afirma que não quer o filho dela engordando para ter problemas de saúde depois.
(D) o filho só quer saber, agora, da tal sopa de letras.


02. No trecho “A mãe diz que é preciso ao menos experimentar para saber o que é ou não gostoso, e o pai diz que, quando era da idade dele, comia cenoura crua, pepino, manga verde com sal, comia até milho verde cru.” A oração em destaque dá ideia de
(A)    adição.                                             (C) conformidade.
(B)    tempo.                                              (D) proporcional.


03. Marque o vocábulo que não apresenta registro de informalidade.
(A)    “... não tô é com vontade de comer comida de velho.”
(B)    “Não-senhor! Só com salada pra valer, arroz, feijão, tudo!”
(C)   “Ainda não acabei, tá faltando letra pra escrever...”
(D)   “... o filho olha o prato tristemente.”


04. No trecho “Está descobrindo que salada é gostoso, não está?”, de qual personagem é esta fala?
(A) pai.                                                       (C) filho.
(B) mãe.                                                     (D) narrador.


05. Marque a opção que representa uma opinião.
(A)    “É teimoso que nem o pai...”
(B)    “O filho olha emburrado o prato vazio...”
(C)   “... O filho vai para o quarto, ...”
(D)   “O filho pergunta o que é macarrão de letrinhas, ...”


06. De acordo com a leitura do texto, o autor deixa a entender claramente
(A)    que existe uma família à mesa, na hora do almoço.
(B)    que a mãe não se preocupa com a saúde do filho.
(C)   que o filho por si só, desperta interesse pela sopa de letrinhas.
(D)   que o pai permite que o filho coma fritura, carne, doce e refrigerante.


07. Há traço de ironia em
(A)    “... a mãe pula na cadeira, pega o bife de volta.”
(B)    “E no Natal [...] vai ser Papai Noel, né? E rei Momo no carnaval...”
(C)   “... um jornalista passou um mês comendo só fastfood, engordou mais de seis quilos!”
(D)   “Lá da cozinha a mãe diz que decretou – de-cre-tei!...”  


08. No trecho “... não tô é com vontade de comer comida de velho”, o sentido da expressão em destaque é
(A)    sopa de macarrão.                              (C) legumes e verduras.
(B)    feijão e arroz.                                      (D) frituras e carnes.


09. O gênero deste texto é
(A)    diário.                                                 (C) relato de memórias.
(B)    crônica.                                              (D) conto.


10. O texto trata, principalmente
      (A)    da alimentação balanceada.             (C) da escolha do que comer.
(B)    do uso das guloseimas.                    (D) dos hábitos alimentares do pai.


11.  A finalidade do texto é
(A)    Informar.           (B) Relatar.             (C) entreter.                (D) persuadir.



















Responda às questões abaixo, consultando o texto de Fernando Sabino.

PSICOPATA AO VOLANTE

 
David Neves passava de carro às onze horas de certa noite de Sábado por uma rua de Botafogo, quando um guarda o fez parar:
— Seus documentos, por favor.
 Os documentos estavam em ordem, mas o carro não estava: tinha um dos faróis queimado.
— Vou Ter de multar– advertiu o guarda.
— Está bem– respondeu David, conformado.
— Está bem? O senhor acha que está bem?
 O guarda resolveu fazer uma vistoria mais caprichada, e deu logo com várias outras irregularidades:
— Eu sabia! Limpador de para-brisa quebrado, folga na direção, freio desregulado. Deve haver mais coisa, mas para mim já chega. Ou o senhor acha pouco?
— Não, para mim também já chega.
— Vou Ter de recolher o carro, não pode trafegar nessas condições.
— Está bem– concordou David.
— Não sei se o senhor me entendeu: eu disse que vou Ter de recolher o carro.
— Entendi sim: o senhor disse que vai Ter de recolher o carro. E eu disse que está bem.
— O senhor fica aí só dizendo está bem.
— Que é que o senhor queria que eu dissesse? Respeito sua autoridade.
— Pois então vamos.
— Está bem.
Ficaram parados, olhando um para o outro. O guarda, perplexo: será que ele não está entendendo? Qual é a sua, amizade? E David, impassível: pode desistir, velhinho, que de mim tu não vê a cor do burro de um tostão. E ali ficariam o resto da noite a se olhar, em silêncio, a autoridade e o cidadão flagrado em delito, se o guarda enfim não se decidisse:
— O senhor quer que eu mande vir o reboque ou prefere levar o carro para o depósito o senhor mesmo?
— O senhor é que manda.
— Se quiser, pode levar o carro o senhor mesmo.
 Sem se abalar, David pôs o motor em movimento:
— Onde é o depósito?
 O guarda contornou rapidamente o carro pela frente, indo sentar-se na boleia:
— Onde é o depósito…O senhor pensou que ia sozinho? Tinha graça!
 Lá foram os dois por Botafogo afora, a caminho do depósito.
— O senhor não pode imaginar o aborrecimento que ainda vai Ter por causa disso — o guarda dizia.
— Pois é — David concordava: — Eu imagino.
 O guarda o olhava, cada vez mais intrigado:
— Já pensou na aporrinhação que vai Ter? A pé, logo numa noite de Sábado. Vai ver que tinha aí o seu programinha para esta noite…E amanhã é Domingo, só vai poder pensar em liberar o carro a partir de Segunda-feira. Isto é, depois de pagar as multas todas…
 — É isso aí– e David o olhou, penalizado: — Estou pensando também no senhor, se aborrecendo por minha causa, perdendo tempo comigo numa noite de Sábado, vai ver que até estava de folga hoje…
 — Pois então? — reanimado, o guarda farejou um entendimento: — Se o senhor quisesse, a gente podia dar um jeito…O senhor sabe, com boa vontade, tudo se arranja.
— É isso aí, tudo se arranja. Onde fica mesmo o depósito?
 O guarda não disse mais nada, a olhá-lo, fascinado. De repente ordenou, já à altura do Mourisco:
— Pare o carro! Eu salto aqui.
 David parou o carro e o guarda saltou, batendo a porta, que por pouco não se despregou das dobradiças. Antes de se afastar, porém, debruçou-se na janela e gritou:
— O senhor é um psicopata! 
(Fernando Sabino. A falta que ela me faz. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 94)





ATIVIDADE 7
01. De acordo com as características do texto, pode-se dizer que o gênero é
                    (A) artigo científico.                                                 (C) relato de memórias.
                    (B) conto.                                                                (D) crônica.

 

02. No trecho “— Se o senhor quisesse, a gente podia dar um jeito…O senhor sabe, com boa vontade, tudo se arranja.” A expressão “boa vontade” significa
                   (A) propina.                                                            (C) recompensa.
                   (B) dinheiro.                                                           (D) desacato.





 03. Associe conforme o seguinte código
      (A) Apresentação do conflito.                          
      (B) Desenvolvimento do conflito.
      (C) Clímax.
      (D) Desfecho do texto.



                                            (__) O momento em que o policial sai do carro e xinga o motorista de 
                                                    psicopata.                                           
                                            (__) As ameaças sucessivas de multar e prender o carro.
                                            (__) É o momento em que o policial propõe explicitamente  “um
                                                    entendimento”.
                                            (__) O trecho em que o motorista é parado pelo policial.






04. Marque o vocábulo no qual apresenta ironia.
      (A) “Psicopata ao volante.”
                   (B) “... O senhor acha que está bem?”
                   (C) “O guarda resolveu fazer uma vistoria mais caprichada,...”
                   (D) “Pare o carro! Eu salto aqui.”






 05. O objetivo do texto é
                    (A) mostrar a inversão de valores, entre o policial e o motorista.
                    (B) mostrar a imprudência no trânsito.
                    (C) mostrar o movimento de propina por infratores no trânsito.
                    (D) mostrar a vistoria de documentos feito no trânsito.
 
06. De modo concluído, o tema do texto é
       (A) ética e cidadania.
       (B) propina e suborno.
      (C) autoridade e cidadão flagrado em delito.
      (D) desacato e infração.






 07. Marque o vocábulo em que há registro de informalidade.
                    (A) “... quando um guarda o fez parar: ...”
                    (B) “... Se o senhor quisesse, a gente podia dar um jeito…”
                    (C) “David parou o carro e o guarda saltou, ...”
                    (D) “O guarda o olhava, cada vez mais intrigado: ...”






 08. No trecho “Os documentos estavam em ordem, mas o carro não estava: ...”, de quem é esta fala?
       (A) do motorista.                                    (C) do narrador.
       (B) do policial.                                        (D) de outro personagem.
 
09. O texto apresenta com maior ênfase, um dos recursos de sinalização, muito utilizado em uma conversa
       (A) a reticência.                                     (C) as aspas.
       (B) os dois pontos.                                (D) o travessão.
 
10. No trecho do texto a seguir “... E David, impassível: pode desistir, velhinho, que de mim tu não vê a cor do burro de um tostão.” A palavra IMPASSÍVEL pode ser trocada sem perda de sentido por
     (A) tranquilo.                               (C) aborrecido.
     (B) perturbado.                           (D) indiferente.